Currículo Vitae

Currículo Vitae

Poeta evadido e obstinado

Impetuoso e desassossegado

Poeta de quase tudo demisso

– Mas acima de tudo insubmisso

dinismoura

domingo, 27 de outubro de 2013

Acto de Contrição


Meu Deus,
porque sois tão bom,
tenho muita pena por nunca
Vos ter compreendido.
Se isto é pecado, perdoai-me,
E ajudai-me a não tornar a pecar.

dinismoura 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

E-mail a Álvaro de Campos

Estive ontem com
o Esteves sem metafísica:
encontrámo-nos casualmente
à porta da Tabacaria.
Anda turbado com as demandas
do país, confessou-me, pesaroso.
Além disso, pesa-lhe o estigma
da sua condição de desempregado.
Pouquíssimo  mais disse, o nosso Esteves.
Cabisbaixo, meteu depois o troco
na algibeira das calças e, com
um ar penetrantemente apagado,
acendeu um cigarro.
Ultimamente tenho fumado
quatro maços de cigarro por dia,
disse-me, com uma voz tão magra
quão a sua cara, antes de partir.


dinismoura

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Atestado médico


Cursei medicina, aprofundei  a anatomia,

Especializei-me em fisiologia.

Depois, meu  adorado  organismo

Composto de devaneios de primavera, conheci-te.

Deslumbrou-se o meu encéfalo,

O meu sistema  endócrino desregulou-se de todo.

Resultado: tu bem sabes:

apaixonei-me por ti, desmedidamente,

O que  mostra perfeitamente a medida

Daquilo que me é impossível medir.

Só para teres uma ideia, a admirável pigmentação

Das tuas íris  de tal modo contaminou as minhas,

Que durante cinco dias tudo, tudo em meu redor

Ganhou tons de pôr de sol outonal.

Um daltonismo esplêndido. 

Entretanto o meu coração, órgão vital

Com as suas duas válvulas, os seus  dois ventrículos

E as suas duas aurículas,

Passou  a contrair e a distender os seus compartimentos

De maneira mirífica, mais intensa, mais exaltada.

Nunca este músculo me tangeu assim tão irrequieto.

Perplexo, decidi analisar o inesperado  fenómeno.

Não muito tempo depois, esbarrei,

Espanto de fogueira, com uma estranheza anatómica:

Ao contrário do que a medicina me ensinou,

Revelaram-me as minhas examinações, pasmei,

Que um órgão vital possuo a mais. Não quis crer.

Decidi reexaminar. Tal-qualmente o mesmo resultado:

No interior da minha cavidade torácica,

Os meus mestres não iriam acreditar,

Com um outro coração me deparei : o teu.

O teu, o teu colorido coração, meu adorado

organismo composto de devaneios de primavera.

Nas minhas artérias e nas minhas veias

Circula também  o teu sangue,

Líquido vermelho e  viscoso que nutre

Esse  extraordinário órgão

Segregante de espantosas e eufóricas auroras

Tão vital para mim quanto

Os demais órgãos do corpo humano.

Falo obviamente do amor,

Um órgão totalmente alheio à medicina.

De acordo com o mencionado,

Mais o quadro clínico apresentado,

Atesto que sou portador

De uma prodigiosa síndrome,

Vendaval vivificante, confluência  de encantamentos,

O que me confere uma capacidade permanecente

De manobrar o leme da burocracia das estrelas,

As rédeas do canto das aves, a alavanca das ambições das flores.



dinismoura

terça-feira, 2 de julho de 2013

Elegia de um português cismativo


(Num banco do Rossio)

Portugal padece de uma síndroma misteriosa     
uma síndroma incurável    atávica    congénita e contagiosa que afecta sobretudo
o sangue que irriga as entrosas do ânimo e o fulcro da motivação
Portugal não venceu ainda o mais temível dos Adamastores –
essa magoada apatia que o impede de tornar-se o timoneiro do seu ideal
Portugal aboliu provisoriamente da sua bandeira a cor da esperança−
o verde que tem é descor    desdém    náusea e marasmo − um vitral doloroso
Portugal tem mais de oitocentos anos
mas de quando em vez tem atitudes de uma infantilidade pungente
Portugal é um poema épico cujos seus mais recentes cantos ele mesmo
tem impunemente e sacrilegamente despoetizado
– Valha-nos São Camões e as suas Tágides
Portugal é um Panteão de alienados amordaçados por uma cegueira
que apenas consente uma ilusão fugaz
Portugal tem todas as caravelas e naus fundeadas nos seus portos
e os seus navegantes     desconhecedores da cartografia dos sonhos
esqueceram definitivamente os caminhos para todas as Índias
Portugal tem ainda por concluir vários Mosteiros dos Jerónimos
Portugal    ultimamente    tem-se fechado em igrejas de melancolia a cismar o seu epitáfio
– Ah     se não fosses a minha pátria     juro-te     pespegava-te com os Lusíadas nas fuças!
(Peço perdão…     pretendia escrever semblante)
Portugal já não sonha casar com uma princesa – Que sonhas tu     meu país     que sonhas tu?
Portugal é o único país do Ocidente que faz fronteira com a Europa
Portugal     muito estranhamente     não possui uma embaixada nas estrelas 
Portugal tem falta de políticas de destino    transcendência e ambição
Portugal dá todas as suas rosas à desesperação
– Ó pátria moribunda     antes desses silvas     urtigas    ou cardos
Portugal não viu nascer ainda aquele que o salvará das utopias que pretendem salvá-lo
Portugal há muito não assoma à Janela do Convento de Cristo de Tomar
Portugal perdeu o salutar hábito de passear pelo jardim que ele mesmo plantou à beira-mar
Portugal não acorda da sonífera vigília
que o impede de despertar de um carcerário sonambulismo
Portugal de outrora estava sedento de aventura
– nos dias que correm está saciado de desventura
Portugal descobriu vários tantos Brasis      mas agora não sai mais de si
– isso é mais que naufrágio: é Alcácer Quibir
Portugal ainda não se deu conta da via crucis que está a construir em direcção ao futuro
– Além disso     amargura cruciante     não vejo nesta terra cireneu algum apto para auxiliar coisa alguma
Portugal conseguiu curar a febre que o mantinha sadio
Portugal teima em manter-se sebastianisticamente embriagado de messianismos e afins
– Basta! Bebe realidade     caramba.
Portugal perdeu irremediavelmente o estatuto de potência espiritual
– Agora terá de expiar gigântico pecado
Portugal ignora de todo o paradeiro dos padrões que pretendia erguer no futuro
Portugal teve a demente    repugnante    odiosa e vil coragem
 de promulgar uma verminosa    nociva    sacrílega e pateta lei
que tenciona encerrar todas as Escolas de Sagres
– E a turba atónita nem um brado dispara…    (Que cambada de exímios paspalhos… )  
Portugal mergulhou no verdete do esquecimento as estátuas dos seus avós-santos-heróis
Portugal há muito deixou de ser hábil na arte de acreditar nas suas forças
Portugal menoscaba a voz dos seus poetas
 – e isso     consequentemente      está a carcomer  a medula das arcadas
que sustêm o pulsar de todos os seus sonhos
Portugal é uma nação de portugueses desterrados que sonham poder um dia voltar ao seu país
Portugal corre o seriíssimo risco de vir a ser julgado por crime de lesa-pátria e animicídio
                                                           
Registo tudo isto
apavorado    temente    atormentado
com uma dolência descomunal

Registo tudo isto
como quem matuta na iminência da própria morte
– Ao mesmo tempo     um surto de raiva voraz adentra-me
 provocando  em mim uma indomável e cruenta ânsia de revolta

dinismoura

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Confidência

(Nótula autobiográfica)

como pessoa
Sou desinteressante
como poeta
Sou irrelevante
como incompetente
Sou brilhante


dinismoura

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Poesia
explica-me de novo
explica-me mais mil vezes
explica-me
como se eu fosse
um imenso esquecediço
a magia e a volúpia
do teu  imenso feitiço


dinismoura
Entretanto
a vida revelou-me
o seu maior segredo.
Sou agora a maior
avenida do medo.


dinismoura